“Batismos”

Em algumas narrativas o desfecho toma o lugar dos primeiros acontecimentos.

No nosso blog é quase inevitável que seja assim, que se postem imediatamente as fotos e de fato os barcos lançados ao mar, navegando.

Foram meses de trabalho para se chegar a este momento e afinal, a um novo começo.

“O batismo pela imersão na água constitui um argumento mítico-ritual bem conhecido, solidário de um simbolismo aquático universalmente atestado (Micea Eliade, Historiador)”

De alguma maneira o fato de serem barcos e de estarem sendo lançados ao mar não poderia de forma nenhuma condicionar este dia a uma simples inauguração. Um ar de realização pessoal e de confraternização entre antes construtores e agora amigos, coloca esta data como especial na memória de qualquer pessoa.

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Interessante é que vários alunos irão velejar se não pela primeira vez, a segunda ou terceira. Interessante também perceber como a oficina faz navegantes muito antes de alguns realmente terem alguma experiência com o mar, vento ou embarcação.

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Quem concluiu seu barco já é um velejador. É só questão de tempo para avançar na lida. Conta também a vontade dos um pouco mais experientes em ajudar.

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De fato alguns dos primeiros momentos navegando são realizados na presença de alguém mais experiente, algum veterano. Cada classe de barco tem suas características e particularidades e estes detalhes se repassados logo no início, encurtam o aprendizado e estreitam a sinergia com a embarcação.

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Quem veleja conhece a alma de seu barco e de certa forma acaba criando intimidade com ele.

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Um discurso “cerimonial” não pode deixar existir. Nenhum barco vai para a água antes de todos os construtores confraternizarem em uma grande roda com seus familiares, amigos e professores.

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Estas fotos são dos batismos da Classe Ibis Rubra 3.5 em Porto Belo – SC, turmas de 2.014, 2.015 e 2.016.

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Em breve postaremos uma edição muito especial com as fotos e fatos que conseguirmos reunir dos primeiros batismos. Simplesmente aguardamos juntar este material, que pertence a um momento anterior aos nos quais este redator teve a honra de participar.

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Crédito Texto (s) : Carlos Werner

Crédito Fotos (s) : Carlos Werner

“Construir um Sonho”

A aquisição de embarcações clássicas moldadas em madeira, seguindo projetos consagrados ou desenhos tropicalizados quando não é simplesmente um sonho, torna-se um objetivo difícil de realizar pela quase inexistente oferta deste item no mercado contemporâneo.

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Especialmente nos USA e na europa existem algumas comunidades náuticas que cultivam a antiga arte de construção naval artesanal, barcos estes celebrados em periódicos e revistas especializadas como a Wooden Boat, que divulga cada conquista destes aficcionados construtores e suas obras maravilhosas.

No sul do Brasil, apesar da tradição no mundo da vela esportiva ter uma longividade que não se estende por muitas décadas o entusiasmo de uma emergente comunidade de velejadores criou o ambiente para várias iniciativas de cultura náutica especialmente na cidade de Itajaí, sede das famosas regatas oceânicas VOR e Jacques Vabre.

A principal e mais querida da comunidade daquela cidade está materializada na forma da Associação Náutica de Itajaí (SC)-ANI, organização sem fins lucrativos que tem como objetivos a difusão de uma mentalidade conectada ao mar, o resgate das tradições marítimas e o incentivo das práticas desportivas ligadas ao mundo náutico.

Seu foco é o desenvolvimento de trabalho social com jovens estudantes (entre 7 e 18 anos) da rede pública municipal. Durante todo ano letivo no contra turno escolar, os rapazes e meninas passam horas por dia aprendendo a remar e velejar, além de receberem noções de cidadania, companheirismo, trabalho em equipe e sustentabilidade numa teia de conhecimentos que visa promover a melhor estruturação da “pessoa” enquanto ser integral.

A ANI é fruto de uma visão do casal Vilmar Braz e Higina Braz, velejadores oceânicos que levaram a cabo uma circum- navegação da terra entre os anos de 1996 a 2001 com o veleiro “Jornal”. A visão e a ideia da missão da futura ANI se construiram ao longo da jornada, durante a qual também se ocuparam em conhecer e estudar inciativas simalares mundo a fora. Ao retornarem estruturação da associação era sua prioridade de vida.

Com o tempo a ANI trouxe para seu convés vários colaboradores, os quais cada um dentro de sua vocação contribuiram com o enriquecimento da enteidade.

Uma das iniciativas mais notóricas é a Escola de Construção Naval que capitaneada pelo “Mestre Wilson” (Wilson José da Silva) acolhe desde 2.008 uma seleção de dedicados amadores para a construção de embarcações de madeira a vela, medindo 3,5 metros armadas ao estilo “dinghy”. Até 2014 o projeto utilizado pela escola foi o Shellback Dinghy do projetista norte-americano Joel White.

Embora não seja exigida experiência anterior na prática em questão, é desejável que os alunos demonstrem alguma habilidade prévia com o uso e o manuseio de ferramentas comuns a trabalhos de marcenaria, as quais serão amplamente utilizadas durante as aulas. Estas aulas, 100% práticas, são ministradas no “paiol”, um galpão onde a ANI mantém sua oficina para a manutenção das suas embarcações. A metodologia é a seguinte: O aluno constrói seu próprio barco com a orientação do instrutor. Cada um risca suas peças, corta, faz a montagem, cola e realiza todos os procedimentos para a finalização da embarcação ao longo de um ano de trabalho.

Construído em compensado naval e resina epóxi o barco se presta tanto para velejar como para remar, ou ainda como barco de apoio para embarcações maiores. Os barcos são leves, com pouco mais de cinquenta quilos e de fácil transporte. Tem capacidade para dois tripulantes adultos ou um adulto e duas crianças.

Construir a embarcação é a primeira fase da convivência com o projeto. Depois de pronto o entusiasta vai se juntar a uma confraria de alunos que já possuem seus barcos e que juntos irão participar de regatas promovidas dentro do calendário anual do Circuito Norte Catarinense de Vela, participando do seu ranking.

As clássicas embarcações de madeira trazem para a raia um pouco de romantismo bucólico e elegância, despertando no público em geral a admiração pelo esporte e muitas e muitas vezes a imediata vontade de participar e de não só sonhar, mas lançar-se ao trabalho e também viabilizar seu sonho náutico.

Esta experiência de regatas, o interesse e a criatividade de quem tem talento para sempre inovar, provocaram Mestre Wilson a pensar soluções que deixasse o projeto original mais marinheiro e apto a novo desempenho. Nasceu assim o projeto Íbis Rubia 3.5 com proa reta, costado alterado e novos pequenos detalhes que fazem o renovado modelo ser um autêntico dinghy brasileiro. O novo barco leva no nome de batismo uma homenagem a ave “Curicaca” (Íbis) tradicional do litoral sul de nosso país e atualmente quase extinta.

Cada vez mais presentes nas águas do norte de Santa Catarina, todos os já 52 velejadores proprietários de seus clássicos Shellback ou Íbis, naves gêmeas que competem juntas, não só trazem um exemplo de amor e engajamento ao esporte, mas também despertam o interesse pelo ócio despreocupado das velejadas tranquilas de final de semana. As velas coloridas e a confraternização de vários ao redor daquelas elegantes embarcações chamam a atenção sempre das crianças e das crianças de um coração um pouco mais vivido, servindo para enriquecer a alma tanto de quem assiste as velejadas, quanto de quem está lá velejando na sua obra de arte.

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Crédito Texto (s) : Coletânea veteranos / Finalização Carlos Werner

Crédito Foto (s) : Carlos Werner

“Gênese Oficinas”

Entre 2005 e 2006 o Prof. Wilson José da Silva freqüentou um curso de “Técnico industrial com habilitação em estruturas navais” na instituição SENAI. Para a conclusão do mesmo foi necessário fazer um estágio probatório, que foi levado a cabo na própria ANI, local onde já trabalhava como instrutor de atividades náuticas.

Para o referido estágio foi proposto a construção de um bote de madeira de 3,50 metros em compensado naval e resina epóxi, cujo projeto foi fornecido pelo amigo e também entusiasta da construção naval em madeira Márcio Teixeira Moreira.

Se faz necessário mencionar também todo o apoio recebido por parte da Associação Náutica de Itajaí na pessoa de seu fundador e diretor na época, Sr. Vilmar Braz, a quem registramos nossos agradecimentos.

Todo o processo de construção foi documentado em fotos e posteriormente foi elaborado o TCC (trabalho de conclusão de curso) detalhando cada parte da obra.

Uma vez a obra terminada resultou em uma bela embarcação feita artesanalmente, com acabamento envernizado brilhante o que acentuava a beleza natural da madeira utilizada como material construtivo.

Após a conclusão o mesmo começou a ser utilizado como barco de apoio da escuna Lendário, veleiro clássico de 18 metros de comprimento, construído em 1946 na Bélgica, que era utilizada em aulas passeio com alunos e comunidades de Itajaí e arredores.

Com seu uso o pequeno bote em madeira brilhante passou a chamar a atenção dos aficionados por barcos. Começou a haver um interesse por parte de algumas pessoas em também construir uma embarcação semelhante.

Tanto o prof. Wilson quanto o Prof. Vilmar Braz eram leitores da revista americana WOODEN BOATS e lhes chamava a atenção o número de escolas voltadas ao ensino a amadores de técnicas de construção de pequenas embarcações em madeira que por lá existiam, em detrimento de nenhuma conhecida em nosso país. Surgiu então a ideia de fazermos algo semelhante por aqui.

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A ANI disponibilizou seu “Paiol”, onde se faziam as manutenções dos barcos da entidade, assim nasceu em março de 2008 a  “OFICINA DE CONSTRUÇÃO NAVAL AMADORA da ANI” de forma singela e com poucos recursos técnicos, o que não foi impecilho para que naquele ano fossem construídas 4 embarcações.

Os primeiros freqüentadores dos workshops foram os seguintes:

  • João Carvalho
  • Pedro Floriano
  • Waldir Motta
  • Cesar Sperandio
  • Marcos Vinicius Eickenberg

Desde então e até o presente momento foram construídas 52 embarcações em 9 anos consecutivos de atividades, sempre o mesmo formato de atividades (workshops) onde cada aluno é assessorado a montar seu barco desde os riscos nas chapas de compensado, o corte das mesmas, a montagem das peças, enfim … A construção peça por peça, do início ao final manualmente com esforço individual do próprio participante e proprietário da futura obra acabada.

Ao término de cada ano realizamos o batismo das novas embarcações, com um encontro de todos os ex-participantes com seus barcos, o que resulta numa linda e colorida festa. Após o batismo o construtor leva para casa sua obra de arte que navega, feliz da vida e podendo afirmar com orgulho:

Esse fui eu que fiz!

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Autor Texto (s) : Wilson José da Silva

Crédito Foto (s) : Carlos Werner